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André Gustavo Stumpf**

Pouca gente sabe, ou se lembra, que Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, é ator de teatro, conhecido e consagrado em seu país por suas peças de humor. Ele começou na sua pequena cidade, Kryvyi Rih, localidade distante de Kiev, lembrada como periferia difícil e perigosa. Ali, iniciou sua carreira de artista sob rigorosa oposição do pai que, engenheiro, foi trabalhar na Mongólia, onde aplicou seus conhecimentos de tecnologia da informação. A família residiu naquele país por algum tempo, mas não resistiu à dieta com base em leite de égua.

Olena Zelenska conheceu Volodymyr no grupo de teatro da cidade. Ela não subia no palco, mas escrevia pequenos diálogos e criava piadas. Acompanhou o grupo até o sucesso na televisão em Moscou, quando perceberam que o pessoal vindo da Ucrânia dificilmente faria sucesso na capital do Império, ainda mais sendo judeus. Eles se casaram e tiveram dois filhos. A família, neste momento, está fora de Kiev em local secreto e fortemente protegido.

Zelensky chegou a fazer algum sucesso na televisão, em Moscou, ao tempo em que Putin ascendia ao governo. As idades são diferentes, mas os dois chegaram ao ponto máximo de suas respectivas carreiras no mesmo momento histórico. A habilidade do artista de teatro, habituado a estar no palco, e contar piadas, fez com o líder ucraniano, que jamais tinha pensado em ser chefe de Estado, tivesse um discurso adequado para todos os momentos. Ironias, rapidez nas respostas e dureza quando necessário.

Os russos mobilizaram, no primeiro momento da invasão, 200 mil homens. Contingente maior que todo o exército da Ucrânia. Mas o presidente foi firme nos seus discursos: “Vamos manter a calma e defender nosso país”, conclamou a seus concidadãos. Ele conseguiu deter a primeira maré de homens que fugiam da guerra e reorganizou as Forças Armadas. A partir daí, viajou por boa parte do mundo para tentar obter meios e modos de enfrentar o que restou do temido Exército Vermelho. Conseguiu: segurou os russos por três anos, numa guerra prevista para durar três semanas.

Na fase inicial do conflito, os russos utilizaram 7 mil veículos blindados, avançaram na direção de Kiev pelo Norte, ao longo das duas margens do rio Dnipro, que atravessa a cidade. Parecia um ataque surpresa, semelhante ao que os soviéticos fizeram na Europa em outros tempos. Em 1956, as tropas soviéticas levaram quatro horas para ocupar Budapest, capital da Hungria, derrubar o governo, cujo líder foi preso, torturado, considerado culpado em julgamento secreto e executado na força. Na invasão da Tchecoslováquia, em 1968, foram necessários dois dias para invadir o país e capturar Praga. Em Cabul, em 1979, as forças especiais precisaram de apenas algumas horas para invadir o palácio fortemente protegido e matar o líder do Afeganistão.

O desenrolar do conflito revelou que o exército russo em nada se parece com seu antecessor, o vermelho. Os ucranianos defenderam suas fronteiras com armas e munições enviadas por diversos países ocidentais. Soldados locais e de outros países da Europa foram recrutados às pressas. Os russos utilizaram, no primeiro momento, mercenários contratados, o que não se revelou produtivo. Putin modificou o comando de suas forças terrestres, passou a utilizar mais drones iranianos e soldados da Coreia do Norte. No primeiro momento, foram 10 mil deles. Passaram também a utilizar equipamentos bélicos produzidos naquele país. Hoje, a situação é de relativo equilíbrio no conflito, com reduzido espaço para qualquer dos dois avançar no campo de batalha.

Mas surgiu em cena o macaco na casa de louça, Donald Trump, que mexeu em muitos pontos sensíveis do comércio internacional e demonstrou à farta sua maneira de negociar. No melhor estilo de corretor de imóveis de Nova Iorque, ele anuncia chantagem ou extorsão. Ato contínuo suspende a ajuda norte-americana à Ucrânia. É o dá ou desce na diplomacia internacional. No entanto, no discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, Trump foi discreto e vago sobre suas ações na Europa e sua relação com Putin.

Em recente reunião do Conselho de Segurança da ONU, entrou em votação moção contra a Rússia por ter invadido a Ucrânia. A moção foi aprovada, mas teve o voto contrário de Rússia, Nicarágua, Coréia do Norte e Estados Unidos. Nunca esses países estiveram juntos em qualquer assunto internacional. Se a diplomacia norte-americana, de fato, mudou de lado e se associou à Rússia, de Putin, os governos europeus deverão mudar de posição e aumentar suas despesas de defesa. Termina a divisão do mundo desenhada na reunião de Yalta, depois da Segunda Guerra, quando os grandes dividiram o mundo em áreas de influência. O recente discurso do francês Emmanuel Macron é o capítulo anterior a uma declaração de guerra. É um tremendo salto no escuro.

** Jornalista

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